sexta-feira, 4 de junho de 2010

Tipografia e liberdade


Essa é uma das perguntas mais recorrentes que me aparecem. Especialmente quando estou conversando sobre a atividade do design de tipos com algum designer gráfico com muitos anos de experiência. À primeira vista essa pergunta parece perfeitamente lógica. Com a quantidade de famílias tipográficas que temos disponíveis hoje, será que não existiria um limite dado pela demanda? É muito comum também observar respostas ligeiramente tecnicistas, afirmando que a tecnologia muda e precisamos de novas fontes que atendam às necessidades dadas por essas tecnologias. Alguns dão exemplos históricos de fontes feitas para jornais, para otimizar o espaço, mantendo a legibilidade. Outros falam das necessidades técnicas de fontes específicas para a leitura em telas. Todos esses argumentos são perfeitamente válidos e não discordo deles. Mas dificilmente alguém ultrapassa os argumentos técnicos para falar das necessidades de comunicação.

O próprio termo “necessidade” pode ser bastante questionável, tendo em vista que uma boa parte do que vemos na indústria, de maneira geral, parece apontar muito mais para a criação de novas necessidades a partir da solução de anteriores – o que indica um fluxo infinito e que parece fazer pouco sentido pragmático. Talvez se substituíssemos o termo “necessidade” por “desejo”, provavelmente estaríamos nos aproximando um pouco mais da natureza humana. As pessoas desejam muitas coisas, entre elas, se comunicar com outras pessoas.

Voltando à pergunta central, certa vez, lendo um artigo escrito por Cyrus Highsmith e publicado no site da TDC, encontrei uma resposta sensacional para a pergunta “Precisamos de mais fontes?”: “Sabe, eu já ouvi a mesma coisa sobre as pessoas”. Embora seja uma resposta sintética, com um certo tom de ironia, ela parece gerar uma nova questão: Qual seria o limite das necessidades ou desejos de comunicação das pessoas? Será que existe? Ouvindo alguns antigos designers suíços e alemães que usam uma família tipográfica para tudo, não é difícil perceber um certo caráter purista e ideológico. Um mesmo padrão de pensamento que, na esfera política, costuma gerar regimes totalitários.

A partir das décadas de 1980 e 1990, com a democratização dos meios de produção de novas fontes, evidentemente muito mais pessoas passaram a se aventurar nesse meio. O que antes era restrito a grandes e tradicionais corporações, hoje pode ser produzido, com o mesmo nível de qualidade, por pequenas empresas especializadas e até mesmo por designers autônomos, bastando, para isso, a dedicação necessária para alguns anos de estudo e prática.

Para os designers gráficos, a oferta de novas famílias tipográficas cresceu consideravelmente nas últimas décadas, e as opções de adequação das propostas visuais às mensagens verbais continuam se expandindo. Isso, antes de tudo, representa a liberdade de escolha. Então eu pergunto: Qual seria a vantagem de termos uma opção menor de fontes disponíveis no mercado? Zona de conforto pode rapidamente virar acomodação. Somos sempre responsáveis pelas nossas escolhas e, consequentemente, pelas mensagens visuais que emitimos.

Sobre o autor

Ricardo Esteves nasceu em 1980, na cidade de Vitória, ES. É graduado em Desenho Industrial / Programação Visual pela UFES e mestre em Design pela ESDI/UERJ. Trabalha com design de tipos, distribui fontes pela sua fundidora independente Outras Fontes e por meio de revendedores como MyFonts, Fonts.com, Linotype e AscenderFonts.

Imagens das letras “a” retiradas dos previews de diferentes fontes no portal MyFonts.